Caminhava um dia pelas ruas de Wan Chai (a zona do meu trabalho) e entre as 7 milhões de pessoas de Hong Kong e a música do meu iPod surgiu este título para o meu blog... Não, não é original! Foi o hino do RoverWay 2003, e como os meus anos de escuteira marcaram bastante a minha vida e ouvir a letra desta música naquele momento fez todo o sentido.... Bora aí, o título do meu blog!
“People in Motion! Don’t you stand out there alone, here is the chalenge you’ve been looking for, get commited and take a step, you can make the difference!” É este o espírito! Vim para esta aventura no espírito contacto! Como dizia um dos oradores do Campus do Inov, somos os embaixadores de Portugal no mundo! Embora não seja o que quero fazer na minha vida profissional, o desafio começa aqui!
Depois de uma dura despedida no aeroporto da Portela e de umas 14 horas de voo, com direito aos filmes que estão em exibição no cinema, uma turbulênciazita na Rússia e uma turbulência mais respeitosa com direito a poços de ar nas montanhas da China, cheguei a Hong Kong!
Entrar em Hong Kong implica vistos... e a Catarina com a mania que é honesta ia ficando do lado de lá, porque disse que vinha trabalhar sem visto de trabalho: Coisa esperta! Safou-me o facto de o Diogo e a Andreia já terem passado e de o Chinês ter sido simpático! Toma lá um carimbo de 90 dias para passeares! (mas quem é que acredita que se vem passear para esta ilha por 90 dias?!)
A recepção no aeroporto foi muito boa porque tivemos direito a uma guia chinesa, que tínhamos contactado antes, a Sandy, é uma querida! E após a chegada ao hostel, qual comida chinesa qual quê, vamos mas é comer sushi!
O meu hostel era uma coisa muito interessante no mínimo (sendo este o adjectivo mais eufemístico que consigo arranjar!) pois apesar de Chungking Mansions (http://en.wikipedia.org/wiki/Chungking_Mansions) ser um sitio interessantíssimo para visitar, dada a underground situation, a mistura de culturas e a dura realidade da emigração, não fiquem por lá! iIsto é, fiquem se forem muito preparados para um quarto sem janela com 2 m por 1,5 m (não estou a exagerar!), casa de banho de 1,5 m por 0,5 m, uns lençóis floreados cheios de manchas a cobrirem um colchão nojento! Preparem-se também para partilhar o elevador com todo o tipo de homens de todas as raças, que olham para as mulheres com aquela cara de VOU-TE COMER! Mas sobrevivivi!!!! Os primeiros 3 dias foram passados numa busca intensiva de casa e dia 11 comecei a trabalhar, yupi!
É verdade que podia ter perdido mais dias a procurar casa, mas a vida de hotel sai cara, não é totalmente confortável e quando temos um feeling por uma casa devemos ficar com ela! A minha casa é pequenina como todas as outras, um 17º andar (equivalente a um 20º) com vista para os prédios circundantes, dois quartos e partilho-a com o João, outro estagiário contacto que trabalha para a Sogrape (como devem imaginar, metade das conversas são sobre vinho!), uma cozinha onde só cabe uma pessoa de cada vez e uma casa de banho de igual dimensão. A minha casa fica em Mid-Levels, junto a Soho, na zona central da cidade! Soho é uma zona excelente, cheia de restaurantes de todo o mundo e bares que se enchem de ocidentais a partir das 6pm para as famosas Happy Hours.
Hong Kong é o local do mundo onde se usa a habitual frase: East meets West, porque na realidade, é isto que acontece, aqui concentra-se o melhor dos dois mundos! Diz-se que, em Hong Kong se pode visitar qualquer lugar do mundo por refeição! É uma cidade super segura, limpa (apesar dos cheiros inóspitos que por vezes surgem, e das ratazanas do tamanho de cães que atacam o lixo durante a noite), onde ninguém mas ninguém manda um papel para o chão ou faz coisas menos civilizadas, até porque existem multas para tudo, até para quem põe o lixo nos cinzeiros públicos em vez de no lixo que fica logo abaixo. Os carros andam ao contrário, as passadeiras têm sempre barulho sonoro que se intensifica quando está verde para os peões, os prédios baixinhos não vencem na vida, todos os sinais estão escritos em inglês e cantonês, as fast foods dos centros comerciais são de comida oriental e em vez de talheres há saquinhos com pauzinhos, uma colher de plástico, uma espécie de guardanapo e um palito (sim eles gostam de palitar os dentes à mesa e se a galinha tiver ossos adoram cuspi-los para o prato), fazem-se filas para tudo, os comerciantes nunca te tentam enganar com nada, absolutamente nada.
Nós os portugueses somos naturalmente desconfiados, estamos habituados a que nos passem a perna... Aqui já me aconteceram situações de duvidar de um troco ou de alguma coisa, e se perguntares vão-te explicar mil e uma vezes para que percebas que está tudo certo...
Quando falei da junção das duas culturas, oriental e ocidental, ela acontece timidamente, nos hábitos de consumo, na abertura de espírito, na moda, na música, no que é a globalização. Mas a maneira de ser das pessoas não muda, aí sim existe Choque Cultural!!
É preciso ter imenso cuidado como se diz as coisas e com o que pedes, pois podem interpretar mal qualquer coisa que digas e juntando o facto de que na sua cultura nunca, mas nunca dizem não, por vezes aceitam coisas ou fazem esforços gigantescos só para te satisfazer um desejo! São pessoas extraordinárias que nos têm ajudado bastante, em tudo o que necessitamos. As pessoas nunca dizem não, tratam-te sempre com muito respeito, se estiveres no seu caminho não pedem licença, no máximo fazem um barulho para que repares que estás no seu caminho. Tudo se troca com as duas mãos, não só os cartões de visita, mas também os recibos e trocos das compras, uma questão de respeito.
Pode ser só uma teoria minha, mas notei esta diferença e não consigo deixar de pensar o quanto importante é:
Na zona do meu trabalho, há uma galeria comercial com umas mesas simpáticas na rua para quem passa descansar, para esperar alguém, para almoçar como é o meu caso, e que estão normalmente cheias de chineses que normalmente não falam inglês, por isso, quando pergunto se me posso sentar, respondem-me com um grande sorriso não! É óbvio que o fazem porque não entendem inglês e subentendem que lhes perguntamos se está ocupado. É esta a diferença! Em Portugal teríamos que perguntar se nos poderíamos sentar, mas para eles isso é impensável, porque é público e se é público todos se podem sentar, caso não esteja ocupado!
Aqui os emigrantes não são chineses (Surpresa!), a não ser os que vêm da Mainland (China por assim dizer!). Os naturais de Hong Kong, cujas famílias não têm ligação à Mainland, não gostam de ser chamados chineses e não se identificam muito com a cultura. Os emigrantes são principalmente Filipinas, Indianos, Indonésios, Tailandeses, muito poucos africanos e europeus que vêm para desempenhar cargos de grande importância (normalmente.... o que não é o caso dos estagiários INOV). Já devem ter reparado que me refiro a filipinas, pois é: só mulheres! Há muitas filipinas, umas 150 mil que são essencialmente empregadas domésticas, amas, de crianças e de cães, ou empregadas em bares. Estas filipinas têm o hábito de se juntar aos domingos em qualquer canto da cidade, é o dia de soltura! Mas juntam-se em altos piqueniques em tudo o que seja passeio aéreo, ruas que são fechadas para a sua reunião, jardins e centros comerciais. Juntam umas caixas de cartão, espalham-nas no chão ou fazem abrigos e aí ficam todo o santo domingo a jogar às cartas (a dinheiro), a comer frutas exóticas, a fazer a manicure, pedicure, massagens, cortar cabelo, catar piolhos, dormir, fazer bordados, coscuvilhar, tudo! As mais ricas levam os computadores para falar no skype com a família! É impressionante!

Trabalho numa empresa familiar de comercialização de vinhos, principalmente portugueses, mas que já divergem para vinhos californianos, australianos, espanhóis, italianos, franceses e do novo mundo. Também comercializa outros produtos portugueses: tostas, patê de sardinhas, latas de atum, queijos, Sumol, água (produtos que aqui são quase considerados gourmet). Tem também um restaurante gourmet português e vamos abrir brevemente a Tasca Portuguesa com direito a todo o tipo de petiscos, vinho e cerveja portuguesa! No início, o meu trabalho foi um pouco tapa-buracos, corrigi as ementas em português, a carta de vinhos, ajudei e ajudo na decoração dos restaurantes, cortei cartões de visita, enfim! Agora, e espero que daqui em diante, tenho tido trabalhos com maior responsabilidade: dou aulas à sommellier do restaurante sobre os vinhos portugueses, castas e regiões, língua e cultura portuguesa, enfim! (apesar de muito simpática, perguntou se era verdade que 25% das pessoas em Portugal eram analfabetas). Estou também envolvida na abertura da tasca portuguesa: o que implica coisas chatas como provar os pratos que serão servidos! IhihihEstão todos convidados para a abertura oficial da Tudy’s Tasca Portuguesa!
Os dias aqui são normais, duros, mas normais, os chineses trabalham imenso, não param para almoçar, pois normalmente compram alguma coisa ou trazem comida de casa e comem em frente ao computador, e trabalha-se muito, mas também dão umas escapadinhas ao facebook, lol!
Vou de transportes para o trabalho, como toda a gente, pois se num espaço tão limitado as pessoas optassem por ter viatura própria teriam que estacionar os carros na Mainland! Os transportes são sem dúvida o ponto forte de Hong Kong, o metro é o meio de transporte mais caro, custa 70 cêntimos por viagem, os autocarros variam entre os 70 e os 35 cêntimos, e o eléctrico custa apenas 20 cêntimos. Os táxis também são baratíssimos! Por isso os carros que se vêem são das pessoas ricas, limousines, Ferrari e Porshe em todo o lado.
No fim do trabalho, qualquer bom ocidental, encontra-se em Soho para beber uma bebida para relaxar de um dia de trabalho, e há sempre uma Happy Hour, sendo difícil resistir ao subir o escalator, não parar para uma bebida. O escalator é a maior escada rolante do mundo! O escalator é o nosso elevador da bica, mas é grátis e das 6h às 10h funciona a descer, já que a zona superior é quase toda habitacional! A partir daí até à meia noite funciona a subir! Ou seja, quem volta tarde para casa volta a subir a pé!
O clima é subtropical, mas agora é Inverno, o que quer dizer Outono em Português! Mas houve uns dias que já pudemos apreciar o que vamos sofrer na Primavera e no Verão! Que calor húmido!!! Por isso é que eles são obcecados pelo ar condicionado! Em minha casa há três e dizem que sem eles não vamos sobreviver!
Não senti o cheiro da poluição, apenas uns dias e a poluição vem maioritariamente da Mainland, aqui não há sacos de plástico grátis para ninguém! Mas tenho saudades do sol! Ele até aparece, mas os prédios que são pequeninos não deixam ver!
A semana passada, a secretária do escritório ofereceu-me o seu almoço! Ao que parece a mãe faz-lhe o almoço todos os dias e põe numa marmita com uns pauzinhos num estojo! Mas naquele dia, a pobre Garfield (às vezes quando os chineses têm de inventar um nome inglês podem ser muito originais!) não queria comer o dim sum (prato tradicional de Hong Kong) nem os noodles que a mãe mandou então, gentilmente, ofereceu-me o almoço! Como a cultura chinesa manda: Never Say No!, por isso lá comi a refeição da Garfield’s mommy e olha até soube a pato! Hoje, no dia em que faço este post... a Garfield foi despedida! Por isso um bem haja à Garfield!
Há mil e uma coisas para contar, tinha de começar por algum lado e como este post já atingiu dimensões exacerbadas, fica para o próximo.
Beijos e abracinhos,
Cat